Uma palavra a comunidade Trans

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Fonte: Google Images

 

Uma das coisas que sempre me incomodou na questão Trans é a questão da passibilidade Cis. Antes de conhecer o movimento não conhecia palavras tais como: hormonização, mastectomia, faloplastia, processo transexualizador,bombadeira e deve ter muitas outras mais. Como muitos dos que me acompanham sabem, sou uma pessoa intersexo, o que significa que passei por muitas cirurgias e conheço o mundo médico há muito tempo e é desse lugar de fala que quero conversar com vocês hoje.

Gostaria de deixar bem claro que respeito e admiro , mulheres e homens Trans e sou a favor de cada um fazer o que entende ser o melhor pra si. Dito isso, afirmo que para o objetivo pessoal de cada um, hormonização e cirurgias que possam garantir seu próprio reconhecimento como homem ou mulher diante de si e da sociedade são bem-vindos, contanto que se saiba o que está fazendo e aos riscos que se está submetendo e é sob esse olhar que quero destacar meu ponto de vista de forma mais aprofundada.

Passei por 8 cirurgias durante a vida, dessas 3 foram relacionadas a questão intersexo. A primeira cirurgia foi compulsória, Eu não participei da decisão. Fui transformado mulher contra a minha vontade com o clitóris aumentado que tinha ao nascer pela questão intersexo e que  praticamente foi removido em sua totalidade ignorando o meu prazer sexual no futuro. A segunda e a terceira cirurgia foi para a construção de uma neovagina, primeiro com uma tentativa de expansão de mucosa e pele que foi rejeitado pelo meu corpo e depois com a utilização de uma pele do próprio corpo para criar um buraco penetrável para o prazer masculino.

Uma das minhas maiores revoltas é com o machismo e o sexismo que impera na medicina. Médicos são ensinados a salvar vidas, mas também a “brincar de Deus”. Na época , apesar de adulta e por todo meu histórico pregresso , achava que a cirurgia ia me tornar feminina , já que me via como mulher incompleta. Rendi-me à mão dos médicos , pois somos ensinados a compreender que eles sabem o que estão fazendo e querem o melhor para nós. A pergunta que fica é: Será mesmo?

Depois da descoberta da cirurgia “normalizadora” feita aos 9 meses para dar descanso a si mesmos, agradar aos meus pais e a sociedade, tenho percebido o quanto o poder sobre os corpos que tem a medicina serve para apaziguar e impedir o levante de questionamentos tais como a normatização do gênero e a imposição dessa normatização como meio de garantir a segurança e a passibilidade de pessoas trans em nosso mundo. Apesar de ser um padrão social, o binário de gênero – fruto do patriarcado e do capitalismo vigente- normatiza corpos e dita como estes devem ser vistos ou então como corpos não correspondentes ao binário devem ser corrigidos  para ser aceitos socialmente. Mas a que preço?

Sou portador de um corpo que foi submetido a duas violências. A primeira foi uma sexualização compulsória não-consentida e a segunda uma hormonização para finalizar o processo sexual-normalizador que não leva em conta o futuro que estes procedimentos podem acarretar. Um descompasso entre a cirurgia na tenra infância e minha identidade de gênero que hoje está sendo reconstruída, mas que por muitos anos e por causa da hormonização me fez ficar confuso e imaginar , por exemplo que a neovagina me faria ser mais feminina, coisa que não ocorreu. Eu me sentia um ET, uma pessoa num corpo que não sabia o que era ou ao que pertencia mesmo tendo uma vulva,vagina construída e uma hormonização que não condiz com minha identidade de gênero.

Pensando nisso chamo a reflexão a população Trans e pergunto será que vamos continuar permitindo que sejamos violentados pela medicina em favor de uma passibilidade cis? Só no ano passado, 343 pessoas trans foram assassinadas no Brasil e acredito que mesmo “passáveis” foram assassinados. Cirurgias e processos cosméticos que garantem a passibilidade , são violências. É tão doloroso ter que passar esse processo transexualizador que com laudos e cirurgias possibilitem nossa existência e inserção social, mas ao mesmo tempo mesmo que as aparências diga que somos cis, sempre seremos TRANS. Muitas vezes essas cirurgias utilizam técnicas que usam corpos como cobaias ou então colocam o corpo em risco por exemplo ao inserir silicone industrial para dar formas mais femininas aos corpos trans. Isso me dói, porque médicos muitas vezes não alertam sobre o perigo e as consequências para o futuro por causa desses procedimentos.

Não posso me hormonizar, não quero mastectomizar. Já fui violentado por tantas cirurgias e processos medicalizadores que não aguento mais ver meu corpo padecer. Estou mais sujeito a câncer de mama por causa da hormonização feminina, além disso sem ela também estou mais sujeito também a osteoporose. È um mato sem cachorro e consequências de processos iniciados que não se pensou sobre  futuro e nem o presente de quem passou por eles. Hoje como pessoa intersexo, Transmaculina não-binária convido a comunidade trans a repensar a violência da modificação corporal que muitas vezes , os indivíduos de nossa comunidade se submetem para se aceitarem e serem aceitos na nossa sociedade.

A genitalização como meio de identificar o gênero de uma pessoa, também é controle. É dizer que corpos não-binários, não devem ser respeitados e terem espaço e reconhecidos como se identificam em nossa sociedade. A transfobia está presente quando não podemos dizer que somos homems por termos buceta, peito e não ter barba ou mulheres sem seios volumosos, pinto e barba não são o que sentem. Os esterótipos construídos socialmente são caixas e jaulas que violentam homens e mulheres trans, além das pessoas trans não-binárias. Nossa segurança é importante e inafiançável, mas também serve para confirmar  a adequação ao padrão social sobre o que é masculino e feminino, além de tornar-nos suas presas.

O meu lugar de fala me mostra o quanto ser quem sou é dolorido e é a partir dele que escrevo. Não julgo pessoas que procuram uma passibilidade cis para viver e sobreviver em nossa sociedade, mas mesmo com ela ainda nos falta oportunidade de emprego e uma visibilidade que questiona o binário, o estereótipo e sociedade como um todo. Àqueles que desejam passar por processos cirúrgicos e hormonais para se sentir como são , faço um alerta, pesquisem bem os riscos a que estão se submetendo e com essa consciência tomem a melhor decisão para si e sejam felizes. Aos corajosos que assumem sua identidade trans sem esses processos, convido-os(as/es) a nos unir e conversar mais sobre o assunto e nos fortalecer. Nossos corpos são nossas bandeiras e merecem viver sem violências.

Nesse dia 20 se comemora por decisão da Assembleia do I Encontro nacional de Homens Trans e Transmasculinos nosso o dia de luta, resistência e celebração de uma nova masculinidade a ser construída dia a dia. Saúdo a todos vocês e celebro meus amigos,  nossa existência e persistência em ser quem somos e como somos, muito mais do que as aparências somos homens com H maiúsculo.

VIVA A LIBERDADE DE SER VOCÊ.

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