As imagens construídas em meio ao caos em que vivemos, tentam e muitas vezes conseguem fazer com que nos correspondamos a elas como elas são. Em contraste a isso, a frase de Heráclito nos lembra que “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras.” Pensando nisso e nos últimos dois anos de minha história recente tenho me perguntado: Quem sou? Como estou? E o que desejo ser?

A gramática do EU, tem sido meu objeto último de análise, na busca por compreender aquilo que o dicionário explica de modo figurado como sendo o conjunto de regras e princípios que tem formado a minha estrutura psíquica e sustentado minha travessia nesses últimos meses. A construção deste ser que vos escreve passa pela compreensão daquilo que transcende a explicação biológica ou médica, não sou só um conjunto de células ou um corpo por onde passam sinais bioelétricos , sou a composição de uma história , sou uma escrita de si.

Genital Ambíguo
Imagem de um genital ambíguo. Foto do site enfermariaaps.com

Num mundo generificado como nosso tudo ganha dois lados, masculino ou feminino. Desde a forma da barriga da pessoa grávida ao ultrassom feito para descobrir o sexo do bebê que agora ganha mais cara de espetáculo com o chá de revelação. Esse tesão pelo sexo, cria uma história, uma expectativa que um bebê sem culpa mesmo em desenvolvimento no corpo de uma mulher carrega. Se por alguma via se engana e na realidade se descobre que o sexo era diferente do esperado, todas as coisas precisam ser refeitas desde as materiais caso se opte pelo azul ou rosa nas roupas ou na decoração de um quarto e principalmente as histórias sociais nutridas pelos pais e familiares daquela criança. É neste sentido que tenho me perguntado, que preço paga a criança intersexo que nasce com genitália ambígua?

 

Eu sou um desses casos e aos 9 meses meu destino foi traçado e por quase 30 anos vivi o desafio de tentar adequar meu corpo a uma feminilidade imposta por uma medida que não era minha. Corpos como o meu numa sociedade binária, são emergências sociais, pois são corpos que estão fora do padrão binário e “pedem” uma adequação. Não só pela norma social, mas também pela corpus jurídico e médico. Assim não sendo um corpo funcional na medida médica , logo fui levado para a sala de cirurgia e consertado para que a sociedade não fosse incomodada e todos dormissem bem, já que um corpo não -binário , não deve ser aceito ou recebido, pois “macho e fêmea os criou, a sua imagem e semelhança”.

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Falômetro Fonte: Google imagens

Ao descobrir o segredo, a caixa de pandora foi aberta e mais um corpo se descobre em meio a sociedade que acredita existirem dois tipos de corpos possíveis, contra pelo menos mais de 40 tipos. Todos as tentativas foram feitas para domesticar e docilizar meu corpo, afinal um pênis de 1 cm não era funcional, mesmo tendo todo o aparelho reprodutor masculino dentro de mim. O trisal é abalado todas as vezes que a caixa de pandora intersexo é aberta, religião-política-economia se estremecem quando corpos se descobrem sendo desviantes desde o nascimento e desestruturam ainda que minimamente o elo da composição que quer manter nossa sociedade coesa e doente.

A escrita de si é uma ferramenta que pode empoderar corpos como os meus. Ser intersexo e buscar uma vivência que foge ao trivial de masculinidade e corpo é um desafio que tomei para mim. Desde a liberdade de comprar as minhas próprias roupas , o que no caso foi um tormento psicológico por pelo menos dez anos em guerras internas com os padrões familiares e sociais até mesmo o desafio da leitura de masculinidade sem a necessidade de uma cirurgia masculinizadora, diante de pares que sofrem de disforia de gênero com seus seios a ponto de se submeterem a mesa cirúrgica para ficarem em paz com a construção masculina que lhes parece mais correta ou satisfatória.

Vejo minha vivência como um desafio mesmo diante de homens trans que acreditam que a estética masculina traz em si uma verdade do que é ser homem diante da sociedade, não só estética, mas de comportamento. Nesse meu desafio por uma composição de uma vida que não cultua a cartilha da masculinidade estereotipada na sociedade, ser um transmasculino não-binário é estar diante da lógica social e criar uma nova todo dia frente a uma pressão para “comprar” e “aplicar” a cartilha social. Essas “escolhas” são duras e desafiadoras e escrever a nossa própria escrita, romper com uma binaridade é lutar para não sucumbir diante de um mundo que diz que só há dois lados.

Nos últimos dois anos, principalmente em 2017, tenho vivido isso na pele. Muitas vezes cansado e pensando em desistir, outras vezes com fé e força para desafiar a sociedade. Esses altos e baixos, frutos de uma depressão que carrego creio que desde os 15 anos é uma composição complexa que se inscreve hoje no mundo de corpos dos não-lugares, do não dado, não visto, do incompreensível e do inimaginado. A complexidade que carrego em meu corpo intersexo e trans traz um questionamento a sociedade do espetáculo que em seus recônditos tem corpos como os meus medicalizados e “estuprados” desde a infância para satisfazer uma sociedade com dois olhos.

Não é fácil, confesso que muitas vezes carrego pensamentos suicidas, sentimentos de incompletude, feridas psicológicas por trazer um corpo “anormal” a luz da sociedade “normal” o que torna o dia-a-dia de uma vida trans e intersexo, a cada despertar uma vitória. Hoje no dia internacional da visibilidade intersexo vejo o quão importante é trazer o assunto para a luz da sociedade brasileira e a necessidade de enfrentar os grandes desafios que a comunidade intersexo da qual faço parte precisa lutar , primeiro saindo do hospital para as ruas, trazendo o assunto diante das rodas de conversas em bares, cafés, universidades e na boca da população em geral e em segundo lugar – não menos importante que o primeiro – tornando público a luta contra a medicalização de corpos não-binários como os meus e de pelo menos 1 a 2% da população mundial segundo a ONU e a Sociedade Intersexo americana, corpos ambíguos não devem ser corrigidos ou adequados, precisamos resistir pois só assim poderemos começar a abalar de forma mais profunda o câncer binarista que acomete nossa sociedade.

Finalizo este texto saudando a comunidade intersexo brasileiro pela sua luta e no âmbito internacional pelo nosso dia de visibilidade internacional, gritando contra a mutilação genital intersexo que todos os dias ocorre em nosso país e pelo mundo, como militante e pesquisador, acreditando na possibilidade de um dia corpos não-binários serem percebidos como corpos possíveis e necessários em uma sociedade diversa e plural que habita um mundo com pelo menos 8 bilhões de seres humanos únicos.

 

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3 comentários sobre “Corpos intersexos e não-binários escrevendo existências

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