Eram pelo menos de 20 a 30 punhos dentro de mim, todos os dias, por pelo menos 1 mês. Todos queriam testar o novo espaço dentro de mim, aquele espaço feito como buraco penetrável, sentia o látex das luvas e a dor que incomodava 1 vez ao dia, para testar tamanho, elasticidade, sem perguntar se estava com dor ou incomodada, afinal eu estava ali pra aquilo, deveria agradecer.

Aquele ditado dito entre eles, estava materializado naquele corpo docilizado, normalizado para a vida em sociedade, “pois é mais fácil abrir um buraco do que levantar um poste” e ali estava um buraco obediente, mais uma cirurgia de sucesso, mais uma moça entregue a sociedade de homens e mulheres de bem. Esta pessoa recém-operada era Eu.

Venho aqui neste pouco tempo que tenho falar sobre os invisíveis que segundo dados da ISNA ( Intersex Society of North America) e da Bióloga Ann Fausto-Sterling é de pelo menos 1,7% da população mundial e maior que o número de pessoas ruivas que você conhece.

Como pensar a saúde para esses corpos? Neste dia de solidariedade de pessoas intersexo em memória a  Herculine Barbin, pessoa intersexo que viveu na França durante o século 19, relatadas pelo livro que apresenta suas memórias  publicadas por Michel Foucault em “Herculine Barbin: o Diário de um Hermafrodita”.  Pergunto-me o que é saúde para os nossos corpos que sequer é dado a oportunidade de existir como são, sem a necessidade de serem mutilados como eu fui para adequar-me a vida em uma sociedade doente que nos cerca.

Milhões como Hercuine foram mutilados e não tiveram a oportunidade mais básica, necessária para qualquer ser humano a de existir como sou. A ótica da generificação pela incorporação estereotípica idealizada pelo psiquiatra e sexólogo John Money nos anos 70 do século passado, cujo sua principal fonte de estudo e pessoa em que tentou implantar esta ideia, David Reimer que suicidou-se em 2004, prova o quanto esta lógica cruel pode causar a vidas inocentes como a de Reimer , a minha e a de muitos outros que foram mutilados na carne para adequar-se a vida feminina ou masculina que ganharam após a mutilação genital por qual passamos.

A não existência dos corpos intersexos que poderiam livremente habitar nosso meio social como são desde a pré-escola e a existência dos sobreviventes deste momento cruel e irreversível pelo menos do ponto de vista cirúrgico, nos faz perguntar: Como pensar em saúde para corpos que nem podem ao menos existir ou mesmo existindo através de uma medicina que privilegia o segredo, procura através do bisturi “cisgenerizar” vidas sem seu próprio consentir?

Questões como essa precisam nos incomodar não só como sociedade, mas também como indivíduos já que o conservadorismo tem se espalhado por aí e acredita que gênero não é assunto para discussão na sala de aula e na formação crítica das novas gerações no desejo de permanecer atrelado às velhas ideias da heterocisnormatividade que inclusive povoa a mentalidade e a ética de nossa classe médica e política.

Nesse dia de solidariedade aos corpos intersexos, lembramos que hoje e sempre é dia de luto e luta e enquanto pudermos mesmo com dor, suor e lágrimas não deixaremos de lutar para que em nosso país e no mundo a mutilação genital de corpos intersexos seja proibida por lei e a saúde física e mental dessas pessoas seja preservada pois a existência nos permite sermos vistos e quanto mais vistos e menos só, livre e iguais podemos decidir o melhor para nós. O corpo esta presente que carrego é presente e como presente eu quero ter o direito de existir, ir e vir e fazer com ele o que Eu quiser e desejar.

Intersexo é vida, existência, luta e resistência. Feliz dia da solidariedade intersexo.

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