A solidão intersexo existe?

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Os movimentos sociais estão aí. Cada um levantando sua bandeira. Militantes apostos e orgulhosos perguntam: onde vamos mostrar a nossa cara dessa vez? E os intersexos, cada um em um canto, vivendo sua vida, muitas vezes sem sequer saber da sua própria condição. Vou pedir licença poética ao movimento negro pra perguntar, vocês sabiam que a existe solidão intersexo?

Como já afirmei nesse blog , algumas vezes, somos solitários, nos sentimos estranhos, desajustados e muitas vezes não sabemos o porquê. Sim, a solidão intersexo existe, graças a rapidez com que a questão é resolvida, falo aqui aos que nascem com diagnóstico de genitália ambígua. Pessoas cuja a medicina e seus exames logo tratam de resolver e outras pessoas que tem alguma das variadas condições de intersexualidade descobertas pela ciência com pelo menos 41 tipos.

Andar pela vida se sentindo estranho ou desajustado não é legal pra ninguém. Quando a sociedade estabelece seus parâmetros e diz que para sermos inseridos no filão social temos que andar dessa ou daquela forma, são estes mesmos que com suas ‘etiquetas éticas’ se assentam sobre seus privilégios cisheteronormativos e não veem o que está ao seu lado e se sente fora do baralho. Ser carta fora do baralho é difícil ainda mais quando você não consegue achar seus iguais pra se integrar, por que somos “seres sociais” ou seja nos reconhecemos andando com os nossos, mas como fazemos quando não encontramos pessoas como nós?

Eu me sentia um ET, até fui xingado disso na época da escola, mas seja na escola, faculdade, pós o sentimento era o mesmo. Eu sempre fui queer só não sabia que era, o queer no sentido original, estranho, dissidente, mas me  achava doente, não achava nos anos 90 e 2000 pessoas iguais a mim. Só em 2016 comecei a ver meus iguais, seres com muita dor e muita coragem de admitir tentei me encaixar não consegui, bora ser estranho mesmo.

A solidão intersexo existe e é muito real. No grupo que participo no face não há um membro que não tenha dito, tentei me ajustar, me sentia um ET, achava ser o único a padecer destas condições, ao descobrir vocês, vejo que não estou só, mas continuamos invisíveis. Ah, Amiel, você bate nessa tecla sempre, da invisibilidade, pois é vou bater nela até quebrar e sabe por que? Porque é necessário.

Hoje uma amiga estava comentando o tanto que a questão intersexo é invisível. Um biólogo e youtuber comentando sobre o caso do momento, a jogadora Tifanny da superliga de voley, em determinado momento do vídeo falando dos corpos dissidentes da cisnomatividade comentou que nunca viu ou falou com um intersexo. Isso mostra algumas coisas que acho bom explanar.

Quando alguém da biologia seja famoso ou não , fala algo assim,fica nítido o porque a medicina tenta nos calar. Somos um desafio, somos a falência da heterocisnormatividade. Cada bebê intersexo com genitália ambígua declara que aqueles 2% da humanidade que somos atenta sobre a construção social que é o gênero e a beleza que é a biodiversidade. A evolução não nos tirou da reta, nós estamos aqui , nascendo e botando na cara de uma sociedade e suas ideias doentes que existimos.

A Solidão intersexo existe por que querem nos calar, se não tentam fazer isso na infância, tentam na adolêscencia e na vida adulta. Corpos dissidentes , não podem existir e quando por alguma causa eles conseguem estar presentes na sociedade, não encontram pares, são calados , são oprimidos, são excluídos do cotidiano. Eu fui um desses dissidentes que tentaram calar, quis a vida que eu descobrisse e ainda bem que isso aconteceu. Porque Eu quero que as pessoas nos conheçam, nos ouçam, nos dê espaço , nos dê voz.

Lembro quando li “Todos , Nenhum, Simplesmente Humano” de Jeff garvin. Lia chorando por que sei a dor que a pessoa ali passa, mesmo que não fique claro qual sexo se pertença, um dos objetivos do livro, um Romance ficcional que demonstra o que é ser humano e aceito sem as caixinhas da sociedade em que vivemos. Falta-nos mais espaços de apoio mútuo e voz. 2017 foi bom para os intersexos.2018 pode ser muito  mais.

Não esperem, Discutam a intersexualidade. No bar, no cinema, na biblioteca, na rua. Somos pequenos, mas somos muitos quem sabe alguém que está ao seu lado perceba que passou por alguma correção cirúrgica na infância se perceba e procure ajuda, ou procure os seus iguais, encaminhem-nos a mim e posso ajudar na orientação.

A solidão intersexo existe, é preciso e possível linkar a uma rede de pessoas intersexo, sem falar do quanto a informação e a divulgação ajudam a manter e criticar a questão  diante da normatividade compulsória saudada pela sociedade brasileira. Queremos não ser mais limpadores de arestas cis. Queremos o reconhecimento governamental e a punição severa pra cirurgias mutiladoras em bebês que portam genitália ambígua . A solidão depende da nossa invisibilidade, quantos mais falarmos sobre nossa existência, menos só estaremos. A bomba está na suas mãos, o que fará com ela?

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O que é saúde para os intersexos?

O que é saúde para os intersexos?

Eram pelo menos de 20 a 30 punhos dentro de mim, todos os dias, por pelo menos 1 mês. Todos queriam testar o novo espaço dentro de mim, aquele espaço feito como buraco penetrável, sentia o látex das luvas e a dor que incomodava 1 vez ao dia, para testar tamanho, elasticidade, sem perguntar se estava com dor ou incomodada, afinal eu estava ali pra aquilo, deveria agradecer.

Aquele ditado dito entre eles, estava materializado naquele corpo docilizado, normalizado para a vida em sociedade, “pois é mais fácil abrir um buraco do que levantar um poste” e ali estava um buraco obediente, mais uma cirurgia de sucesso, mais uma moça entregue a sociedade de homens e mulheres de bem. Esta pessoa recém-operada era Eu.

Venho aqui neste pouco tempo que tenho falar sobre os invisíveis que segundo dados da ISNA ( Intersex Society of North America) e da Bióloga Ann Fausto-Sterling é de pelo menos 1,7% da população mundial e maior que o número de pessoas ruivas que você conhece.

Como pensar a saúde para esses corpos? Neste dia de solidariedade de pessoas intersexo em memória a  Herculine Barbin, pessoa intersexo que viveu na França durante o século 19, relatadas pelo livro que apresenta suas memórias  publicadas por Michel Foucault em “Herculine Barbin: o Diário de um Hermafrodita”.  Pergunto-me o que é saúde para os nossos corpos que sequer é dado a oportunidade de existir como são, sem a necessidade de serem mutilados como eu fui para adequar-me a vida em uma sociedade doente que nos cerca.

Milhões como Hercuine foram mutilados e não tiveram a oportunidade mais básica, necessária para qualquer ser humano a de existir como sou. A ótica da generificação pela incorporação estereotípica idealizada pelo psiquiatra e sexólogo John Money nos anos 70 do século passado, cujo sua principal fonte de estudo e pessoa em que tentou implantar esta ideia, David Reimer que suicidou-se em 2004, prova o quanto esta lógica cruel pode causar a vidas inocentes como a de Reimer , a minha e a de muitos outros que foram mutilados na carne para adequar-se a vida feminina ou masculina que ganharam após a mutilação genital por qual passamos.

A não existência dos corpos intersexos que poderiam livremente habitar nosso meio social como são desde a pré-escola e a existência dos sobreviventes deste momento cruel e irreversível pelo menos do ponto de vista cirúrgico, nos faz perguntar: Como pensar em saúde para corpos que nem podem ao menos existir ou mesmo existindo através de uma medicina que privilegia o segredo, procura através do bisturi “cisgenerizar” vidas sem seu próprio consentir?

Questões como essa precisam nos incomodar não só como sociedade, mas também como indivíduos já que o conservadorismo tem se espalhado por aí e acredita que gênero não é assunto para discussão na sala de aula e na formação crítica das novas gerações no desejo de permanecer atrelado às velhas ideias da heterocisnormatividade que inclusive povoa a mentalidade e a ética de nossa classe médica e política.

Nesse dia de solidariedade aos corpos intersexos, lembramos que hoje e sempre é dia de luto e luta e enquanto pudermos mesmo com dor, suor e lágrimas não deixaremos de lutar para que em nosso país e no mundo a mutilação genital de corpos intersexos seja proibida por lei e a saúde física e mental dessas pessoas seja preservada pois a existência nos permite sermos vistos e quanto mais vistos e menos só, livre e iguais podemos decidir o melhor para nós. O corpo esta presente que carrego é presente e como presente eu quero ter o direito de existir, ir e vir e fazer com ele o que Eu quiser e desejar.

Intersexo é vida, existência, luta e resistência. Feliz dia da solidariedade intersexo.

Poder médico, Mídia e Transgeneridade. A quem servis?

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fonte: Google imagens

Coisa mais linda é ter sua minoria noticiada na mídia né? Ah ter um programa em rede nacional que fala de transexualidade, crianças, hormonização, empoderamento é show. Será mesmo? A quem serve a mídia golpista? O que interessa ao capital a questão social Trans hein? E quando ocorrem mortes de pessoas trans (algo diário) porque não se discute, acaso não convém?

De novo, acho que vou ganhar inimigos no movimento, mas é preciso provocar, não podemos ficar passivos a situação. O recente programa noturno que “celebrou” a questão trans, teve consultoria de uma mulher trans respeitadíssima no meio, mas como sabemos a edição final sempre fica a cargo da direção e a falta de contemplação dos homens trans para fala ( os presentes tiveram que pedir pra falar) demonstra o quão invisibilizados somos mesmo no movimento trans. Já falei no meu face, apesar de ter algumas trans e travestis apoiando a transmasculinidade, a generalização de que homens trans são estupradores invisibiliza a luta e pra mim é um sério problema. Dá um textão gigante, mas eu falo disso outro dia.

Na mesma semana, um mesmo personagem apareceu em dois programas como consultor, um programa semanal e outro dominical que até iniciou uma série por trás disso. Psicanalista renomado como “apoiador” da causa trans e famoso no meio médico, sei que na aparência ele parece apoiar a causa, mas é sexista e transfóbico. Como vítima, na questão intersexual sei que a dimensão que tem o poder médico que adora dar voltas e servir a mesma causa, de continuar com a norma e o estabilishment, aliada a indústria farmacêutica que investe milhões e bilhões em pesquisas para engordar cada vez mais suas contas bancárias.

Como já falei em textos anteriores, cada um faz o que quiser da vida, mas é necessário pontuar questões e deixar a pulga atrás da orelha da comunidade a qual faço parte. Nesse sentido, uso a minha vivência como intersexo pra servir de base. Fui hormonizado para o feminino desde os 12 anos de idade, como parte do processo normalizador adotado pelos médicos brasileiros e ao redor do mundo para a questão intersexo. Não há nenhum estudo a longo prazo sobre os efeitos da hormonoterapia na vida adulta com a hormonização na adolescência, não há nada que demonstre os riscos que corremos com isso (somos cobaias no caso trans de forma consentida) sem nenhum sinal de alerta ao risco de embrenhar-se no desconhecido, além disso o mercado cirúrgico ganha a cada cirurgia de neovagina e mastectomia realizada, além de ser um buraco penetrável que não garante prazer a pessoa, fica claro a corrida do ouro da vez, anunciar o poder da medicina alopática e cirúrgica para o processo, mas a que preço?

Quando Eu falo da questão da aliança poder médico + mídia em favor da causa trans, deixo como alerta a questão de vários pontos de vista. Em primeiro lugar é atrair a audiência que se perdeu com o golpe e o uso potente das redes sociais da internet pelas minorias como espaço de discussão , empoderamento e divulgação de causas. Em segundo lugar , tudo está sendo preparado pra que a população antes desconhecendo do assunto agora passe a ser informada e se torna cativa e receptiva a um personagem feito por uma atriz CIS que durante a trama vai demonstrar o processo de transição e as questões que ele acarreta, claro com o viés particular de uma autora CIS sobre a questão, sempre será distante da vivência porque cada vivência é singular e diferenciada, ou seja nunca alguém de fora terá uma noção completa do que passamos, mas isso é até compreensivel, mas ao mesmo tempo preocupante. Por que não ter um roteirista trans ou um ator trans para executar tal personagem?

Já falei aqui que a medicina e a industria farmacêutica não dão ponto sem nó. A novela pode ajudar a aumentar as vendas de hormônios e também de produtos específicos para a comunidade trans, mas sempre seremos exotificados e vistos como nicho de mercado e o mercado não leva em conta vidas e sim quanta grana foi colocado da venda de produtos no meu bolso hoje? A heterocisnormatividade também vence no final, porque teremos uma modelo sarada nas telas da TV que vai continuar a pregar o esteótipo da expressão de gênero que é bem-vinda, bombado , hormonizado, mastectomizado e vai demonstrar ao público jovem trans o que é a transgeneridade que chamo de “limpinha” e passável, garantindo segurança ao indivíduo e a adequação a normatividade cis.

Ah, mas o sonho de todo mundo que é trans é ser passável , sim, mas nem todo mundo. Temos as pessoas trans que são não-binárias e invisibilizadas até no próprio movimento. O que me deixa muito triste, porque só demonstra que só somos aceitos por aquilo que aparentamos e isso pra mim nada mais é do que uma vitória do patriarcado sobre a população Trans. Você é transfóbico Amiel? Não. Eu sonho com o dia que a comunidade trans vai acordar para a verdadeira revolução, parar de dar mole pro patriarcado. Dizendo que a aparência é quem faz a pessoa e não o sexo psíquico, aquilo que a pessoa se identifica desde que nasce.

Precisamos levar em conta que existem muito mais gêneros do que a nossa mente pode sonhar. A sociedade precisa aceitar nossa autoidentificação de gênero, além da nossa identidade que transcende ao padrão normativo e pode ser sim bem diferente do homem/mulher CIS e TRANS presente em nossa sociedade. Quando pergunto a quem a midia e o poder médico serve , a resposta é clara, ao bolso e ao patriarcado. A disforia de gênero para mim é um processo que permite a apresentação de um questionamento que pode ser necessário, não para a identificação Trans do indivíduo, mas ao próprio padrão heterocisaparente que serve a um estabelecimento de que o indivíduo deve ser assim ou assado.

Não estou no seu corpo e na sua mente, por isso acho que cada um deve lidar com seu corpo da forma com que lhe agrade, mas ao mesmo tempo não posso deixar de nos provocar e bater na tecla que transcender ao padrão heterocisnormativo não é só assumir nossa transgeneridade, mas afirmar que nossa vida e visão não estão circunscritos a padrões sexistas e moralistas que não conseguem compreender a diversidade da vida humana. Quando psicanalistas ou médicos dizem que quanto mais cedo for feito o processo, maior é a possibilidade de se reverter a transgeneridade do indivíduo. Me perguunto se ao falar isso em rede nacional, mesmo que por um deslize , não está se fazendo um deserviço a causa, sendo contraditório as novas questões que se deseja propagar.

Pitacos e provocações que espero que façam os nossos olhos abrir e o bom diálogo surgir