Um bilhetinho para bilharinho.

Um bilhetinho para bilharinho.

Sobrevivência, essa é uma palavra que me acompanha. Ser trans e intersexo no país que mais mata vidas transgêneras é um desafio. Se você não morre pela bala ou violência, morre cada dia um pouco pela depressão, ansiedade e solidão que se tem em viver numa sociedade heteronormativa que se limita a olhar o mundo de forma dicotômica e que não transcendeu as categorias homem/mulher , macho/fêmea que nos acompanham todos os dias.

Não bastasse isso que já é muito nota-se da parte de muitos médicos a transfobia e interfobia latente que os cega e não permite que possam descer de seus pedestais e ouvir a militância trans e intersexo. A arte da escuta parece não ser muito bem vista por aqueles que olham a ciência e a prática médica como resposta a todas as coisas. A técnica e a necessidade de responder rapidamente a questões que necessitariam de espera, atenção e escuta do paciente desaparecem quando são mais necessárias.

Algumas pessoas acompanharam a live que fiz no fim de semana, nela ressaltei o quanto  a entrevista da endocrinologista Berenice Bilharinho de mendonça ao nexo jornal me deixou revoltado. Esse meu texto é uma resposta de militante intersexo e pessoa trans que percebe a necessidade de se ter uma carta pública direcionada exclusivamente a endocrinologista entrevistada.

Em primeiro lugar, gostaria de ressaltar que o movimento militante ao redor do globo é a favor e luta pela despatologização da intersexualidade. Acreditamos que não é possível viver num mundo em que o casamento entre biologia, direito, política e economia prepararam a sociedade para viver num mundo em que a heteronormatividade é a lei. A heteronormatividade compulsória como apresentou em artigo homônimo a poeta e pesquisadora Adrienne Rich é a base da sociedade em que vivemos, a norma que torna nossos olhos e ouvidos atentos para um mundo que ignora a transgeneridade e a própria intersexualidade. Costumo dizer baseado nas leituras que faço da Bióloga Ann Fausto-Sterling que o sexo vai além de dois e se colocarmos as corporalidades intersexo temos pelo menos 41 variações, ou seja, o olhar heteronormativo segue um projeto que ignora corpos e identidades em busca de atingir um construto social hermético, já nisso a biologia provoca pane no sistema social, estamos para além de 2 sexos/corpos.

Seguindo nessa linha ainda apresento meu segundo ponto. Ao ler Canguilhem, a noção entre normal e patológico como ele apresenta se dá pelo meio, ao mesmo tempo o autor ressalta a importância da vida como parâmetro pra essa discussão. Fico aqui pensando com meus botões, segundo a endocrinologista, a causa para as cirurgias é a preocupação com os pais e a própria criança a necessidade de sanar a dor, tratar a “doença”. Se Canguilhem e outros como Foucault e Deleuze que analisaram a medicina, a psiquiatria e a construção de discursos para definir quem é normal/anormal, saudável/doente nos dão a percepção de que isto só ocorre por causa da construção social que designa corpos e sexualidades como visíveis e invisiveis, saudáveis e doentes pergunto se realmente é o indivíduo intersexo ou de identidades de gênero e orientações sexuais desviantes se são os doentes, ou se é a norma a doença que aprisiona nossa sociedade e mata pessoas? Segundo esses autores, o meio nos influencia, se o meio nos vê só por dois âmbitos e invisbiliza outros quem será o “real” doente.

Em terceiro lugar, o que mais me provocou raiva na fala da médica foi a transfobia e a ignorância que chega a exagerar e misturar coisas. Não, doutora, não vou dar aula pra senhora, mas vou te apresentar fatos. A cisgeneridade ignora certos fatos, tais como a importância da identidade de gênero e a necessidade de ouvir o diferente. Quando se ignora o diferente, mortes como as de pessoas trans no Brasil se tornam corriqueiras , porque convidar a sociedade a ouvir as narrativas dissidentes e mexer numa estrutura tão “sólida” que nem ao menos ouvir é possível. Consultas de 5 minutos que olham pacientes como doenças ambulantes e não pessoas com histórias, imbuídas de valores, altos e baixos na estima fazem com que médicos não valorizem quem está na sua frente.

Pergunto à doutora se já ouviu algum relato trans ou intersexo com atenção para perceber o quanto não somos ouvidos, o quanto a nossa realidade atada em corpos que não reconhecemos como nossos e nos provocam dores, magoas , ansiedade e depressão, muitas vezes provocados pelas cirurgias precoces e pela heteronormatividade compulsória nos faz viver num limbo que muitas vezes nem a possibilidade terapêutica de um acompanhamento psicológico temos. Além disso, muitas dessas pessoas intersexo são abandonadas pela equipe multidisciplinar que passa a ser só endocrinológica no pós cirúrgico e na transgeneridade cirurgias de redesgnação sexual com uma fila de 20 anos de espera, Eu que esperei 8 e nutria esperanças na cirurgia pergunto: que psicológico será saudável enquanto aquilo que incomoda e lhe causa disforia de gênero esperar décadas pra ser resolvido ou então demorar 2 anos para que o processo transexualizador comece. Será que você tem noção do impacto dessas questões na vida de uma pessoa trans/intersexo? Será que o drama que essas pessoas vivem que inclusive não lhes dá acesso a educação ou trabalho é só uma coisa nada a ver ou de quem não tem o que fazer da vida?

Em quarto lugar, você já teve a curiosidade de pesquisar sobre as identidades de gênero e a sexualidade de uma pessoa trans/intersexo para perceber que somos corpos e identidades muito mais do que travesti e que nossos corpos são motivo de ódio, rancor e desejo de morte por simplesmente não estar encaixados no padrão social de orientação sexual ou identidade de gênero que agrada a sociedade e mesmo naquelas que agradam continuamos a viver na marginalidade da sociedade e na vulnerabilidade de sermos quem somos porque simplesmente a sociedade não nos ouve, só nos mata seja na rua como o caso Dandara dos santos ou na mesa de cirurgias que não permitemque a questão intersexo chegue às casas, escolas e espaços públicos de uma sociedade tão binária como a nossa? Há um mundo binário na transexualidade e não binário também. Já desceu do salto hoje pra pesquisar, ler e ouvir sobre nós?

E por último , mas não menos importante, já parou pra pesquisar as reclamações da comunidade intersexo no mundo? Elas são as mesmas da realidade brasileira e se existem não são por acaso. As queixas dos militantes brasileiros e globais serem a mesma demonstra o quanto a comunidade médica é mal instruída, onipotente e insensível a realidades que ignoram a pessoa humana em dentrimento a agradar a sociedade (pais e demais responsáveis) sem dar o devido valor a vida e ao futuro distante daquele ser que será cirurgiado. Nosso clamor não é mimimi, temos suporte de organizações internacionais como a ONU e a OMS em que as denúncias da pratica mutilatória intersexo é atualizada a cada ano e porque mesmo com sanções desses organismos essas práticas ainda ocorrem? A meu ver tudo isso é possível pela invisibilidade do movimento intersex, pela superioridade e corporativismo dos médicos e pela heteronormatividade compulsória que chancela todos esses acontecimentos.

Infelizmente o que percebo é que no meio médico nos falta aliados. Somos taxados muitas vezes como agressivos e insensíveis com os dramas dos pais e o papel dos médicos. Não conseguimos fumar o cachimbo da paz, porque ele não está disponível. A única coisa que me alegra nos últimos tempos é ver que as redes sociais tem nos dado algum espaço , não ficamos gritando por socorro entre nós, outras pessoas também nos ouvem. Nossa militância existe porque apesar de tudo cooperar para desistência, nosso olhar está no futuro das crianças pelas quais lutamos para quem não passem as mesmas cirurgias que passamos. Além de termos um olhar pro presente, dando suporte aos sobreviventes das tragédias de mutilação, segredo e silêncio pelo qual muitos de nós passaram e ainda passam tendo como farol o passado que nos marcou e quem não desejamos que se repita. Existimos, resistimos e sonhamos com uma sociedade mais justa, livre em que ser o que somos baste e nada mais. NÃO VAMOS NOS CALAR.

 

AVANTE COMUNIDADE INTERSEXO BRASILEIRA, ESTAMOS SÓ COMEÇANDO!!!!

 

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Gritos Invisíveis

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Fonte: Hypeness

 

Você sabe o que é ser invisível diante do estado de direito? É ter registro de nascimento, nome social ou nome retificado, mas ter parcas políticas ao seu dispor ou nenhuma. Tenho pensando muito nisso desde a morte de Agatha Mont, o quanto ser invisível em meio a uma sociedade patriarcal e conservadora passa a nos desencorajar a ter fé numa mudança de quadro.

O que falo pode parecer negativo, mas é um chamado a reflexão. O capitalismo com seu anseio por oferta e venda de produtos, tem tornado a vida humana também um produto para consumo ou descarte. O conservadorismo crescente em nossa sociedade, valoriza o que a norma prega como aceitável e agradável tornando corpos em mercadorias que precisam se adequar a norma social (hetero/cis/branca/magra) e  retirando o valor intrínseco que há na diversidade que permeia a vida humana.

Nossa sociedade nos prepara para rejeitar e ignorar pessoas e comportamentos diferentes. Eu me lembro de quando ainda era mulher , usar roupas esportes e não ligar muito pra questão estética e ser chamada de mulher-macho por parentes ou colegas. O poder do consumo é tão grande que parece que viver é estar num grande supermercado com aparências e comportamentos a venda, numa desvalorização da essência, da personalidade e do corpo de cada indivíduo.

Essas marcas ao ser aplicadas sobre nós, vão nos entristecendo, fragilizando e demonstrando a descartabilidade da vida humana, por não se enquadrar no que a sociedade deseja. A insegurança é uma dessas marcas que deixa-nos indefesos ao enfrentar o outro ou o espelho ficamos cada dia mais próximo do abismo, por não estar no peso desejado pra usar as roupa do verão além de ter a necessidade de ter um corpo sarado seja por cirurgias cosméticas ou por malhação intensa.

Imaginem só quando ao nascer, seu sexo não está definido. Médicos e pais passam a tomar decisões sobre seu presente sem pensar no futuro. Uma cirurgia encaixa a criança no gênero que exames vão revelar sem ao menos respeitar o desejo daquele(a) a quem essa decisão vai afetar. Nascer intersexo é estar com seu gênero na mão de pessoas cujo o pensamento é para a rápida resolução do problema, afim de agradar ao patriarcado e dormir com a consciência limpa. O meu caso e o de outros adultos intersexo provam que se a decisão não for tomada com a consentimento da pessoa, pode causar traumas e danos psicológicos prejudicando o presente e o futuro.

Ao nascer homem e ter um corpo corrigido para o feminino, não me foi dada a chance de viver aquilo que a natureza e sua sabedoria me designou. Apesar de ter passado muito sofrimento durante toda a vida e ser uma pessoa carente de afeto, insegura e em tratamento contra a depressão, hoje tenho a certeza de que também recebi uma dádiva. Ser intersexo é lutar para tirar do sigilo e da obscuridade do ambiente médico e familiar, além do padrão normativo social a nossa condição , trazendo a luz os males que pais e médicos provocaram ao não estar abertos a receber e aprender com indivíduos portadores características sexuais diferentes para a formação de sua identidade de gênero e orientação sexual.

Sentir-me indefinida ou estranha era sentir-se uma peça feita fora do padrão social que não respeita a pluralidade da natureza, incompatível com o corpo que me foi designado. Pessoas trans são assim , nossa psique não casa com o corpo que temos e aí só nos resta transicionar através  de hormonização , cirurgias e modificação do vestuário aquilo que meu cérebro vê. Eu não consegui comprar a feminilidade que é vendida pelo sistema capitalista e binário, meu corpo foi modificado para ser adequado, mas a revolução pelo conhecimento começou mesmo que tardia e está ocorrendo dia-a-dia. Ser aceito numa sociedade patriarcal e conservadora é um desafio, pois os direitos e liberdade são garantidos aos iguais.

Nem todos são iguais perante a lei e Agatha é prova disso. Preta, periférica e trans, lutava para construir um futuro para si. Profissional do sexo de dia, estudante de artes visuais á noite. Sua vida desde que nasceu foi acompanhada pelo racismo e também foi abruptamente interrompida, pois era um “macho de saia” para os alunos(as) que escreveram no banheiro feminino que usava na faculdade. A transfobia diária escancarada naquela parede de sanitário é  resultado de uma pobre sociedade de padrões e que  não compreende a natureza sábia que governa os reinos animal, vegetal e animal e é superior ao homem que se acha senhor de todas as coisas.

A morte de Agatha foi a declaração escancarada de que estamos num mundo não-feito para amadores e que pessoas  trans são sobreviventes que enfrentam a falta de oportunidades nas escolas e nas empresas, além da dificuldade de poder realizar o desejo de possuírem o corpo sonhado. O corpo em que se veem é produto capitalista caro com a venda com próteses de silicone e cirurgias  além da burocracia estatal que nega o direito a hormonização e dificulta a retificação do nome e do sexo destas pessoas. Faz-se necessário políticas públicas eficazes para garantir a manutenção da vida de pessoas trans, através da lei de identidade de gênero que tramita no congresso nacional, obrigatoriedade de cotas Trans na consolidação das leis trabalhistas e o livre acesso a educação que nos garante a constituição.

A luta trans é árdua, mas tem conseguido pequenos avanços e uma certa visibilidade já a causa intersexo é invisível e a militância brasileira muito pequena. Nossos corpos são nossas bandeiras, lutamos pela liberdade de ter nosso corpo aceito como ele é, corpo que pertence ao indivíduo, gênero que pertence a pessoa. Somos a prova de que a natureza é maior do que a cultura , somos a transcendência do que a sociedade acredita como gêneros existentes atrelados a uma genitália e desejamos que crianças não passem por cirurgias de designação sexual compulsórias. Lutamos pela proibição dessas cirurgias, além da possibilidade de se colocar na certidão de nascimento dos bebês intersexo gênero neutro, agênero ou intersexo. Ainda é um sonho, além de uma maior manifestação da militância brasileira, precisamos tirar dos livros de medicina a realidade intersexo e coloca-la a luz de nossa sociedade .

Como pessoa Transmaculina acredito na necessidade de uma luta constante pela causa trans, pois nossas vidas correm perigo todos os dias. O Brasil é o pais que mais mata pessoas trans no mundo e o país com o maior número de mortes a LGBTs. A cada 25 horas uma pessoa Lésbica, Gay, Bissexual ou Trans morre em nosso país e só no ano passado esse número atingiu a marca de 343 mortes, o que demonstra que ter orientação sexual diferente do padrão estabelecido é motivo para assassinar-nos. Sou intersexo, o que também significa que luto e grito pela proibição de cirurgias “corretivas” em crianças intersexo e políticas públicas que garantam a prisão de médicos que usam da moral para modificar corpos sem o consentimento de seus próprios donos, além do reconhecimento do Estado da existência esse grupo social com a inscrição do gênero neutro, intersexo ou agênero na certidão de nascimento da criança garantindo também a desburocratização da retificação de nome e gênero no momento em que a pessoa definir sua identidade de gênero.

Aviso que minha militância não ficará restrita aos textos desse blog, ela vai ganhar o Youtube com os vídeos do canal desse blog, além das ruas , dos gabinetes , das palestras e onde mais for necessário, pois o meu corpo é minha bandeira e faço dele a minha luta.

Basta de Transfobia e de cirurgias cosméticas. Viva a vida e a pluralidade dos corpos e desejos.