Gritos Invisíveis

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Fonte: Hypeness

 

Você sabe o que é ser invisível diante do estado de direito? É ter registro de nascimento, nome social ou nome retificado, mas ter parcas políticas ao seu dispor ou nenhuma. Tenho pensando muito nisso desde a morte de Agatha Mont, o quanto ser invisível em meio a uma sociedade patriarcal e conservadora passa a nos desencorajar a ter fé numa mudança de quadro.

O que falo pode parecer negativo, mas é um chamado a reflexão. O capitalismo com seu anseio por oferta e venda de produtos, tem tornado a vida humana também um produto para consumo ou descarte. O conservadorismo crescente em nossa sociedade, valoriza o que a norma prega como aceitável e agradável tornando corpos em mercadorias que precisam se adequar a norma social (hetero/cis/branca/magra) e  retirando o valor intrínseco que há na diversidade que permeia a vida humana.

Nossa sociedade nos prepara para rejeitar e ignorar pessoas e comportamentos diferentes. Eu me lembro de quando ainda era mulher , usar roupas esportes e não ligar muito pra questão estética e ser chamada de mulher-macho por parentes ou colegas. O poder do consumo é tão grande que parece que viver é estar num grande supermercado com aparências e comportamentos a venda, numa desvalorização da essência, da personalidade e do corpo de cada indivíduo.

Essas marcas ao ser aplicadas sobre nós, vão nos entristecendo, fragilizando e demonstrando a descartabilidade da vida humana, por não se enquadrar no que a sociedade deseja. A insegurança é uma dessas marcas que deixa-nos indefesos ao enfrentar o outro ou o espelho ficamos cada dia mais próximo do abismo, por não estar no peso desejado pra usar as roupa do verão além de ter a necessidade de ter um corpo sarado seja por cirurgias cosméticas ou por malhação intensa.

Imaginem só quando ao nascer, seu sexo não está definido. Médicos e pais passam a tomar decisões sobre seu presente sem pensar no futuro. Uma cirurgia encaixa a criança no gênero que exames vão revelar sem ao menos respeitar o desejo daquele(a) a quem essa decisão vai afetar. Nascer intersexo é estar com seu gênero na mão de pessoas cujo o pensamento é para a rápida resolução do problema, afim de agradar ao patriarcado e dormir com a consciência limpa. O meu caso e o de outros adultos intersexo provam que se a decisão não for tomada com a consentimento da pessoa, pode causar traumas e danos psicológicos prejudicando o presente e o futuro.

Ao nascer homem e ter um corpo corrigido para o feminino, não me foi dada a chance de viver aquilo que a natureza e sua sabedoria me designou. Apesar de ter passado muito sofrimento durante toda a vida e ser uma pessoa carente de afeto, insegura e em tratamento contra a depressão, hoje tenho a certeza de que também recebi uma dádiva. Ser intersexo é lutar para tirar do sigilo e da obscuridade do ambiente médico e familiar, além do padrão normativo social a nossa condição , trazendo a luz os males que pais e médicos provocaram ao não estar abertos a receber e aprender com indivíduos portadores características sexuais diferentes para a formação de sua identidade de gênero e orientação sexual.

Sentir-me indefinida ou estranha era sentir-se uma peça feita fora do padrão social que não respeita a pluralidade da natureza, incompatível com o corpo que me foi designado. Pessoas trans são assim , nossa psique não casa com o corpo que temos e aí só nos resta transicionar através  de hormonização , cirurgias e modificação do vestuário aquilo que meu cérebro vê. Eu não consegui comprar a feminilidade que é vendida pelo sistema capitalista e binário, meu corpo foi modificado para ser adequado, mas a revolução pelo conhecimento começou mesmo que tardia e está ocorrendo dia-a-dia. Ser aceito numa sociedade patriarcal e conservadora é um desafio, pois os direitos e liberdade são garantidos aos iguais.

Nem todos são iguais perante a lei e Agatha é prova disso. Preta, periférica e trans, lutava para construir um futuro para si. Profissional do sexo de dia, estudante de artes visuais á noite. Sua vida desde que nasceu foi acompanhada pelo racismo e também foi abruptamente interrompida, pois era um “macho de saia” para os alunos(as) que escreveram no banheiro feminino que usava na faculdade. A transfobia diária escancarada naquela parede de sanitário é  resultado de uma pobre sociedade de padrões e que  não compreende a natureza sábia que governa os reinos animal, vegetal e animal e é superior ao homem que se acha senhor de todas as coisas.

A morte de Agatha foi a declaração escancarada de que estamos num mundo não-feito para amadores e que pessoas  trans são sobreviventes que enfrentam a falta de oportunidades nas escolas e nas empresas, além da dificuldade de poder realizar o desejo de possuírem o corpo sonhado. O corpo em que se veem é produto capitalista caro com a venda com próteses de silicone e cirurgias  além da burocracia estatal que nega o direito a hormonização e dificulta a retificação do nome e do sexo destas pessoas. Faz-se necessário políticas públicas eficazes para garantir a manutenção da vida de pessoas trans, através da lei de identidade de gênero que tramita no congresso nacional, obrigatoriedade de cotas Trans na consolidação das leis trabalhistas e o livre acesso a educação que nos garante a constituição.

A luta trans é árdua, mas tem conseguido pequenos avanços e uma certa visibilidade já a causa intersexo é invisível e a militância brasileira muito pequena. Nossos corpos são nossas bandeiras, lutamos pela liberdade de ter nosso corpo aceito como ele é, corpo que pertence ao indivíduo, gênero que pertence a pessoa. Somos a prova de que a natureza é maior do que a cultura , somos a transcendência do que a sociedade acredita como gêneros existentes atrelados a uma genitália e desejamos que crianças não passem por cirurgias de designação sexual compulsórias. Lutamos pela proibição dessas cirurgias, além da possibilidade de se colocar na certidão de nascimento dos bebês intersexo gênero neutro, agênero ou intersexo. Ainda é um sonho, além de uma maior manifestação da militância brasileira, precisamos tirar dos livros de medicina a realidade intersexo e coloca-la a luz de nossa sociedade .

Como pessoa Transmaculina acredito na necessidade de uma luta constante pela causa trans, pois nossas vidas correm perigo todos os dias. O Brasil é o pais que mais mata pessoas trans no mundo e o país com o maior número de mortes a LGBTs. A cada 25 horas uma pessoa Lésbica, Gay, Bissexual ou Trans morre em nosso país e só no ano passado esse número atingiu a marca de 343 mortes, o que demonstra que ter orientação sexual diferente do padrão estabelecido é motivo para assassinar-nos. Sou intersexo, o que também significa que luto e grito pela proibição de cirurgias “corretivas” em crianças intersexo e políticas públicas que garantam a prisão de médicos que usam da moral para modificar corpos sem o consentimento de seus próprios donos, além do reconhecimento do Estado da existência esse grupo social com a inscrição do gênero neutro, intersexo ou agênero na certidão de nascimento da criança garantindo também a desburocratização da retificação de nome e gênero no momento em que a pessoa definir sua identidade de gênero.

Aviso que minha militância não ficará restrita aos textos desse blog, ela vai ganhar o Youtube com os vídeos do canal desse blog, além das ruas , dos gabinetes , das palestras e onde mais for necessário, pois o meu corpo é minha bandeira e faço dele a minha luta.

Basta de Transfobia e de cirurgias cosméticas. Viva a vida e a pluralidade dos corpos e desejos.

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